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Uma Brevíssima História do Vinho

  • Foto do escritor: SBAV - SP
    SBAV - SP
  • há 24 horas
  • 4 min de leitura

Por: Sergio Bonachela |


Nada sabemos sobre o primeiro encontro do homem com o vinho, possivelmente produzido por acaso, há pelo menos 9.000 anos. Mas o que deve ter chamado a atenção para essa bebida, mais que o seu aroma ou sabor, foi a sensação incomparavelmente inebriante de relaxamento proporcionada por ela, numa época em que viver era apenas sobreviver. Além de relaxar, logo descobriu-se que o vinho também alimentava, curava, desinfetava e matava a sede com mais segurança que a água. Com tantas virtudes, a vinha foi sendo domesticada e propagada pelo mundo antigo e o vinho foi se tornando elemento fundamental da civilização, aparecendo com  protagonismo nas cerimônias religiosas, nas narrativas mitológicas e nos principais cultivos disseminados pelos impérios da antiguidade ocidental, para alimentar as tropas e abastecer as populações. As ânforas utilizadas nesse tempo para armazenar o vinho não eram resistentes nem permitiam empilhamento e sequer tinham um fechamento que impedisse o conteúdo de estragar rapidamente. Por isso, o comércio do vinho era restrito e de curto alcance. Nessa primeira fase da história do vinho, uma “Idade da Ânfora”, para ter vinho, era preciso produzi-lo no local e esse foi, com certeza, o maior incentivo à propagação do cultivo da vinha.


 

A partir do século III d. C., a qualidade das barricas de madeira foi aperfeiçoada até ganharem a preferência para o armazenamento e, principalmente, o transporte do vinho. Foi uma verdadeira revolução para o consumo de vinho, o ínicio de uma “Idade da Barrica”. Transportado em barcos pelos oceanos, mares e rios ao longo de toda a época medieval, o vinho passou a ser uma mercadoria de extrema importância comercial, porque agora também acessível a quase todos que não o produziam. Regiões famosas até hoje se consolidaram por causa do comércio de vinho, como Bordeaux, a despeito da repulsa ao álcool desenvolvida por algumas culturas, por convicção religiosa. Foi nesse contexto que o vinho passou a enfrentar, além da cerveja, outros poderosos concorrentes disseminados principalmente a partir do século XV, como os destilados, o café, o chá e até mesmo a água potável. O comércio de vinho teve de se reinventar, apresentando para o mundo estilos até então desconhecidos, como o Jerez e o Porto, e preparando a chegada de outros mais, com a expansão da vitis vinifera para a América, o sul da África e a Oceania.

 

Até o século XVII, as barricas de madeira só apresentavam um problema grave: o vinho virava vinagre muito facilmente. Porosas e propiciando o contato com o ar, as barricas permitiam a ação das bactérias que deterioravam o vinho, embora não se soubesse, na época, como nem por qual motivo isso acontecia. O comércio era condicionado a essa situação: era preciso vender e transportar o vinho logo que produzido e distribui-lo aos consumidores logo que desembarcado. Foi quando outra revolução aconteceu, com o desenvolvimento de uma dupla cuja impermeabilidade e resistência resolveu definitivamente esse problema: a garrafa de vidro moderna e a rolha de cortiça. Só então passou a ser possível falar em armazenamento ou envelhecimento de vinhos, marcando a passagem para uma “Idade da Garrafa”. Mas as ameaças chegaram igualmente espetaculares: os vinhedos pelo mundo foram flagelados sucessivamente no século XIX por fungos (oídio, míldio) e insetos (filoxera).

 

Controladas essas ameaças a duras penas, a evolução técnológica dos séculos XIX e XX e a difusão desse novo conhecimento enológico foram responsáveis por um salto de qualidade que elevou ao nível dos vinhos franceses a produção de vinicultores do Velho Mundo (Itália, Espanha, Portugal) e do Novo Mundo (Estados Unidos, Chile, Austrália), ajudando a expandir o consumo mundial da bebida. Mas ao popularizar o consumo e celebrizar  profissionais da área, entre enólogos (Michel Roland, Paul Hobbs) e críticos (Jancis Robinson, Robert Parker), esse processo também elitizou os grandes vinhos, tornados inacessíveis aos simples apreciadores pela cobiça de colecionadores, investidores e esnobes.

 

Que tal um giro ainda mais interessante pela história do vinho, com rótulos acessíveis e disponíveis no mercado brasileiro? Comece pelo vinho italiano “Antonini Ceresa” 2011, Aglianico Beneventano IGT, da uva Agliânico, uma das mais cultivadas da Península Itálica na época do Império Romano. Passe ao bordalês “L de Lafitte Laujac” 2006, Medoc AOC, representante da região vinícola mais famosa do mundo desde o século XII. Prossiga pelo espumante brasileiro Cavalleri Brut NS, elaborado pelo método clássico, o mesmo utilizado em Champagne, desenvolvido por Don Perignon por volta de 1690. Continue pelo Chianti DOCG Ruffino 2012, da denominação de origem mais antiga do mundo, delimitada em 1716 por decreto do Grão-Duque da Toscana, Cosimo III. Conheça o “Royal OportoRuby” NS, da Real Companhia Velha, a mais antiga empresa de vinhos do porto de Portugal, fundada pelo rei D. José I em 1756. E termine essa turnê histórico-enológica pelo chileno Ventisquero Reserva Carmenére, feito de uma casta praticamente abandonada na sua terra natal, a França, e esplêndidamente adaptada,  desde a década de 1850, ao terroir do Novo Mundo do vinho.

 

Saúde!

Por: Sergio Bonachela - 04/08/2026

Foto: Wikimedia Commons


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