top of page

Feriadão em Mendoza

Foto do escritor: SBAV - SP
SBAV - SP
há 13 horas
7 min de leitura

Por: Moacir Nagae |

Neste feriado de Independência, aproveitamos os dias a mais de folga e demos uma esticada até Mendoza. Já estivemos lá por duas vezes, mas a mais recente foi há mais de 15 anos... parece ontem!!

E Mendoza continua linda!!! Não é o Rio de Janeiro, claro, mas acho que a frase vale para lá também. Porém, queria destacar que me assustou o tamanho da cidade!! Talvez, quando fui antes, tenha visitado um pedaço da cidade que me deu a impressão de ser menor - ou realmente era - mas, desta vez, me deparei com estradas grandes, viadutos, condomínios para todos os lados, e vários McDonald’s!! Não sei se por causa do vinho e aumento do turismo ou se tem mais a ver com a indústria do petróleo, que prospera por lá....

Aliás, um tema que algumas bodegas abordaram foi a perda de vinhas velhas, centenárias, para os condomínios de moradia de luxo. Um rapaz nos falou que os netos estão preferindo vender as propriedades ao invés de cuidar das fazendas que herdaram, e outra moça se mostrou indignada que as autoridades deveriam fazer algo para preservar as vinhas antigas... difícil de julgar... 

De qualquer forma, os Andes continuam lá, formando uma paisagem linda!! E, nas poucas vezes que fui ao centro, fiquei com a impressão da cidade estar viva, agitada, com vários bares e restaurantes para conhecer.

Acabamos não vivendo muito a cidade desta vez, pois optamos por ficar hospedados em uma vinícola a 30 min do centro. Com o bônus de ter o entardecer e o amanhecer admirando as cordilheiras (sem querer fazer bullying com os paulistanos!!) e com o ônus de ter que ir até a cidade para opções de saídas à noite.

 


E os vinhos? Como estão?

Fomos a uma boa variedade de vinícolas: visitamos 13 no total e confesso que foi meio exagerado. O ritmo de 3 por dia me fez deixar as atividades físicas de lado (quase um pecado) e a jantar muito pouco e sem vinho (isso sim, um pecado).


Na ordem:

Luján de Cuyo, a caminho do hotel.

Bodega Carmelo Patti – No caminho para o hotel onde iriamos nos hospedar, estava a Carmelo Patti, que me chamava a atenção, mas que não tinha encaixado na programação. Dei uma olhada no site e vi que dava para marcar uma visita no dia e resolvi parar. Valeu muito conhecer o sr. Carmelo e ouvir seus ensinamentos de como guardar os vinhos, abrir as garrafas sem quebrar as rolhas e sua tese de que seus vinhos precisam de 8 anos para estarem no auge. Tradicionalista, faz seus vinhos como sempre fez, com uvas do seu vizinho desde que começou, há 40 anos!! e muito bem-feitos!! Principalmente o Cabernet Sauvigon e o Gran Assemblage 2018.

  


Valle de Uco, já no dia seguinte.

Finca Adelma – Essa foi um acaso, na verdade tínhamos marcado em outra vinícola que tinha dois endereços... nem preciso explicar que fui em um e a visita era em outro... bem, mas acabamos indo na Adelma por indicação do próprio motorista. O negócio principal desta vinícola de Tupungato, é a venda de uvas e não propriamente os vinhos, apesar de eu ter gostado deles. Tanto é que em 2026 não vão produzir pois venderam todas as uvas. Fizemos uma degustação que incluía empanadas que estavam ótimas. Os vinhos também!! Destaque para Adelma Gran Reserva Malbec 2012, um tinto encorpado, com 15% de álcool e recomendação de abrir algumas horas antes de beber. Daqueles que se pode mastigar... me encantou.

  

Val de Flores – Vinícola do Michel Rolland, daí já se pode parar de explicar, não? A visita foi no complexo do Clos de los Siete, em Vista Flores, e dá para dizer que o empreendimento é lindo!! Arquitetura das vinícolas, os vinhedos, enfim. A recepção também foi ótima, conduzida pelo Daniel, um peruano com um humor rápido e inteligente que acrescentou conhecimento e leveza nas explicações. Não conhecia a linha Mariflor e gostei bastante, todos os varietais muito bem feitos, mas claro que o destaque é o Val de Flores, feito com vinhas velhas que ficam fora, mas próximo, do complexo.



El Vistaflorino – Uma vinícola de garagem que produz 30 mil garrafas por ano. Interessante conhecer essas iniciativas de jovens fazendo vinho de qualidade em quantidades minúsculas e com equipamentos simples. Fazem a fermentação em caixas de plástico!!! Gostei dos vinhos e acho que são promissores. A vinícola é do Damián Núñez e fomos recebidos pelo seu irmão, Lucas, que também é enólogo e conduziu a degustação com seus rótulos e um vinho na barrica cujas uvas eram de um lote de Mariflor. 



Luján de Cuyo, agora sim como destino.

Matías Ricittelli Wines – Sensacionais, é como classificaria os vinhos da Ricittelli.  A visita foi muito boa, o rapaz que nos recebeu fez uma bela apresentação da vinícola. O espaço fica em La Compuertas e é bem legal, conta com um restaurante estrela Michelin que fica em um contêiner!!! Super descolado!!! Faz vinhos de várias formas: ânforas, ovos de concreto, foudres - tudo menos inox. E além de Mendoza, tem vinícola na Patagonia também. De lá saem um Riesling bem gostoso e o Flor, um Semillón com envelhecimento biológico, a mesma técnica utilizada em Jerez e no Jura. Além disso, faz vinhos no Valle do Uco, nos extremos de altitude: em Gualtallary, La Carrera (o Sauvignon Blanc que degustamos é de lá), Chacayes e San Pablo. Gostei de todos que degustamos!!!


Maal – Logo ao lado da Ricittelli, um projeto de dois amigos, Matías e Alfredo, que dizem fazer vinhos para os amigos. Pequena produção concentrada em Malbec que produz muito bons vinhos, com e sem madeira, até com aduelas, sempre com nomes intrigantes. Vinícola toda feita com material reciclado num ambiente jovem e descontraído. Gostei do Bestial, o mais concentrado que experimentamos. 


Renacer – Vinícola adquirida pela Miolo em Mendoza. Almoçamos muito bem em seu restaurante com um brinde de moscatel brasileiro e harmonizações atenciosas. Depois disso fizemos uma visita às belas instalações e a degustação dos vinhos. A vinícola é muito bonita, com lagos onde patos e outros pássaros aproveitam o ambiente. O destaque é o Milamore, um tinto feito como Amarone. Um Austríaco estava na degustação e disse que foi lá por causa deste vinho!!! 


Ainda em Lujan de Cuyo

Quimera – Bodega da Achaval Ferrer, mas que faz seus próprios vinhos. Resolvemos ir lá pois é comandada por uma enóloga, Cecíla Moretti, que ouvimos falar super bem pelos seus blends. Aliás, é esta a diferença, Quimera era, na mitologia grega, uma fera com cabeça de leão, corpo de cabra e cauda de serpente, ou seja, uma mistura de animais e, por isso, deu nome à bodega da Achaval Ferrer especializada em blends.

A vinícola é muito bonita, moderna, restaurante com vista maravilhosa e com vinhos excelentes. Gostamos muito do Diamante, do Valle de Uco, e do Memento, de Luján de Cuyo.


Animal Organic – Fomos comer um asado harmonizado com os vinhos de Ernesto Catena e sua esposa, Joanna Foster. Fica em Chacra de Coria e mais parece uma chácara para passar o final de semana. Tem uma vinícola pequena que faz experimentações enquanto a produção de seus vinhos mais importantes fica na Tikal, no Valle de Uco, onde é possível fazer visita somente no verão. Ótima experiência com asado muito bom e o sempre bom Alma Negra.


Lagarde – Escolhemos esta vinícola pois foi a primeira que visitamos em 2004!! E em função de termos lido sobre o belo trabalho que as irmãs Sofia e Lucila Pescarmona têm feito. Realmente a vinícola está muito bonita, com restaurantes - um deles com estrela Michelin - e uma mescla de modernidade com a tradição do prédio principal e suas enormes piletas de cemento.  Os vinhos do Proyecto Hermanas e este Viognier estão muito bons!!


Ciclo Andino – Como estávamos hospedados lá, fizemos uma degustação no jantar, com empanadas mendocinas. Foi uma surpresa!! É uma vinícola nova, cujos donos alemães resolveram comprar uma antiga propriedade com Malbecs plantados há mais de 120 anos!! Começaram a produzir vinhos em parceria com o enólogo Italiano Giuseppe Franceschini e, já na primeira safra, foram super pontuados na Descorchados com 98 pontos para o vinho Malbec Gran Ciclo Mas de Cien 2024, das vinhas centenárias onde fica o hotel. Além deste malbec, o Reserva Sémillon Amaneceres 2024, com 95 pontos, também estava espetacular!!


Maipú

Casa Vigil – Antes de pegar o voo de volta, aproveitamos para mais duas visitas. A primeira foi na Casa Vigil que tem uma estrutura muito boa, aliás o Alexandro Vigil, além da sua literalmente “casa” em Cachingo tem restaurantes e cervejarias pela cidade. Os dois muito bons!! No início fiquei assustado pelo número de gente que vai visitar o local. Só no nosso horário (9:30h) tinham uns 10 casais!! Quase todos brasileiros, kkk. Mas além de serem super bem-organizados, a visita é bem criativa e as degustações eram separadas. Fizemos uma de comparação entre os terroirs de Mendoza, Gualtallary, Agrelo, El Cepillo e Chacayes, sempre com Cabernet Franc como varietal. Eu tinha preferido o Chacayes, mas depois mudei para o El Cepillo e com Gualtallary sempre me deixando em dúvida. Ou seja, o negócio está ficando grande, com várias iniciativas, mas os vinhos... continuam excelentes!!


Mais uma em Luján antes de seguir para o aeroporto.

Viña Cobos – Apesar do tempo meio exprimido resolvemos visitar a vinícola que também conta com uma elogiada enóloga, Diana Fornasero!!! A vinícola construída por Paul Hobbs é linda, moderna, com áreas distintas para produção do Felino, Cocrodilo e Bramare de um lado e outra com cubas menores para o Cobos, Volture e Viñedos Próprios.

O capricho com os vinhedos em Luján de Cuyo e no Valle de Uco é enorme, e o resultado aparece na qualidade dos vinhos. Vinícola linda e vinhos excelentes!!



De volta a Sampa. 

Foi uma verdadeira maratona de vinícolas, mas valeu a pena!! As grandes e famosas mostram que têm motivos para estar onde estão e as menores, que têm potencial para chegar lá!! Ainda existe espaço para explorar cada vez mais as encostas das cordilheiras e a retomar vinhedos antigos que, por algum motivo, ficaram esquecidos. Uma evidência disso é que existem somente duas DOC por lá, em Luján de Cuyo e San Rafael. 

Fica a vontade de voltar para ver para que caminhos nossos hermanos vão trilhando, conhecer melhor o Valle de Uco e cada uma de suas sub-regiões e explorar mais Maipú. Ouvi recomendações de visitar pequenos produtores de lá que trabalham com vinhas velhas... e mesmo rever os mais tradicionais, por que não?


Por: Moacir Nagae - 10/09/2026


1 comentário


sirleynagae
há 4 horas

Que viagem incrível! Imersão no mundo do vinho. Vinícolas bem interessantes. Muito obrigada por compartilhar!

Curtir
bottom of page